sexta-feira, 21 de abril de 2017
Sonia
Eu não te amei. Não como seu marido e filhos. Eu não te conheci desde sempre como seus netos. Minha relação com você foi de outra natureza: cumplicidade dos amigos fortuitos. Talvez por isso tudo o que sinto é a suavidade da sua presença e da sua ausência. Assim, sensações simultâneas e indecisas como você frente a uma barraca hippie em Istambul. O mundo me deu um pedacinho seu para guardar. Como aquelas flâmulas que lançaram no Quarto Centenário de São Paulo. Quem guardou uma daquelas triângulos de prata que desceram dos céus? Eu não vi. Tinha só dois anos. Mas no álbum de fotografias da família havia uma dessas flâmulas, testemunha do brilho daquela noite inesquecível...Tanto ouvi a história que acabei criando uma memória daquilo. Anos depois, foi você quem fixou essa lembrança, descrevendo-me todos detalhes da festa mágica. No meio da algazarra domingueira de filhos e netos, ninguém percebeu como você me confidenciava o encantamento pelo celulóide banal que os olhinhos azuis da moça encantada transformou, em prata. Como quiz o poeta.
Nesse passo, durante 17 anos, em centenas de almoços, aniversários e passeios, sempre rodeados pelo clã, bebemos o que pudemos das nossas conversas. E com o tempo, fomos trançando memórias, urdindo o tecido das verdadeiras amizades.
Hoje só ele me resta. Quando bate a saudade ele me aquece. Que bom que aproveitamos bem o nosso tempo.
PS
Só hoje, 21 de abril de 2017 conseguir terminar esse texto que comecei em 21 de julho de 2015.
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