O pé de meu pai
O pé de meu pai se agita, mexe, treme como se soubesse que vai morrer.
Na escuridão da noite, preparam o impensável: sua separação do corpo. Amanhã ele não estará aqui. terá ido embora embrulhado em algum saco plástico com selo de lixo biológico, destino conhecido por poucos.
Esse pé ajudou muito a nós todos e agora se vai. Sem choro nem vela. Ao contrário, é acusado de ser a esquina das dores do velho. Amanhã será uma monstruosidade feia e descartada.
Mas não foi sempre assim. Lembro com saudades desse pé que chutava com a força de gigante a bola plástica da Estrela, estourando a parede da sala, lançando-a invariavelmente em direção dos antúrios sagrados da minha avó.
Sentirei falta do pé firme que forçava a pá da terra vermelha do Jardim Patente, preparando a demarcação do terreno da primeira casa própria.
Natal de 2016
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