Véspera de muita coisa
Amanhã, dizem, haverá uma enorme greve no país. Nesses dias, depois dos 40, geralmente fico acompanhando o movimento pelo rádio e TV mas, dessa vez acho que vai ser bem diferente. Meu filho sináptico, o Théo, vai nos arrastar para o futuro com o seu pensamento. Uma tese com múons, quarks, spins, e outras tantas palavras fora do cotidiano, enfeixadas numa fumaça de gauloise, organizadas em poesia matemática, dirá a um grupo de professores que Deus, se existe, é bem mais louco do que se pensava.
Para ouvir isso, nos olhares, teremos que entrar no sacrosanto território universitário. Aqueles portões fecham por solidariedade às minhocas do biotério...amanhã, dizem, haverá greve nacinal. Greve ao contrário. Param-se os transportes públicos e as pessoas ficam em greve. Em casa. Comendo pipoca e vendo na rede Globo o que está acontecendo.
Mas eu estarei lá.
Fiquei chateado pela manhã mas com o passar do dia a coisa foi ficando mais estimulante. Afinal o que pode acontecer. Ser filmado por um helicóptero? Ficar com a bexiga cheia? Coisinhas. Um dia desses é memorável. O filho cruzando as galáxias do raciocínio e a família emperrada na marginal do Pinheiros. Impagável como diria o Almyr Gajardoni.
Vou dormir sei que teremos muito assunto no aniversário do genro, Will, no sábado....
quinta-feira, 27 de abril de 2017
terça-feira, 25 de abril de 2017
O pé de meu pai
O pé de meu pai se agita, mexe, treme como se soubesse que vai morrer.
Na escuridão da noite, preparam o impensável: sua separação do corpo. Amanhã ele não estará aqui. terá ido embora embrulhado em algum saco plástico com selo de lixo biológico, destino conhecido por poucos.
Esse pé ajudou muito a nós todos e agora se vai. Sem choro nem vela. Ao contrário, é acusado de ser a esquina das dores do velho. Amanhã será uma monstruosidade feia e descartada.
Mas não foi sempre assim. Lembro com saudades desse pé que chutava com a força de gigante a bola plástica da Estrela, estourando a parede da sala, lançando-a invariavelmente em direção dos antúrios sagrados da minha avó.
Sentirei falta do pé firme que forçava a pá da terra vermelha do Jardim Patente, preparando a demarcação do terreno da primeira casa própria.
Natal de 2016
sexta-feira, 21 de abril de 2017
Sonia
Eu não te amei. Não como seu marido e filhos. Eu não te conheci desde sempre como seus netos. Minha relação com você foi de outra natureza: cumplicidade dos amigos fortuitos. Talvez por isso tudo o que sinto é a suavidade da sua presença e da sua ausência. Assim, sensações simultâneas e indecisas como você frente a uma barraca hippie em Istambul. O mundo me deu um pedacinho seu para guardar. Como aquelas flâmulas que lançaram no Quarto Centenário de São Paulo. Quem guardou uma daquelas triângulos de prata que desceram dos céus? Eu não vi. Tinha só dois anos. Mas no álbum de fotografias da família havia uma dessas flâmulas, testemunha do brilho daquela noite inesquecível...Tanto ouvi a história que acabei criando uma memória daquilo. Anos depois, foi você quem fixou essa lembrança, descrevendo-me todos detalhes da festa mágica. No meio da algazarra domingueira de filhos e netos, ninguém percebeu como você me confidenciava o encantamento pelo celulóide banal que os olhinhos azuis da moça encantada transformou, em prata. Como quiz o poeta.
Nesse passo, durante 17 anos, em centenas de almoços, aniversários e passeios, sempre rodeados pelo clã, bebemos o que pudemos das nossas conversas. E com o tempo, fomos trançando memórias, urdindo o tecido das verdadeiras amizades.
Hoje só ele me resta. Quando bate a saudade ele me aquece. Que bom que aproveitamos bem o nosso tempo.
PS
Só hoje, 21 de abril de 2017 conseguir terminar esse texto que comecei em 21 de julho de 2015.
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