segunda-feira, 15 de maio de 2017

Aposentado


Tudo, tudo o que eu queria hoje era parar de trabalhar. Adoraria não ter mais esse compromisso de transformar-me em dinheiro para poder viver mais um dia e assim continuar me transformando em dinheiro num ciclo aparentemente eterno.
Trabalho há 51 anos. Estou enjoado de cumprir ordens, respeitar horários, atender caprichos. Estou cansado de ser um profissional. Adoraria me tornar um amador. Olhar o mundo como olhava quando criança. Encantar-me com uma história em quadrinho sem me preocupar como foi feita. Ser só espectador. Público. Como estou cansado de regurgitar frankensteins gráficos. Bah chega. Estou de mal hoje.

domingo, 7 de maio de 2017

Mais pai.


. Assim como nunca chegou, nunca partirá. Precisamos nos ajudar ´para que isso aconteça. Acho que ele precisa desfrutar da companhia daquele deus de Goiás e me deixar. Já fiz muita coisa mas confesso que não sabia tudo,  não. Ainda mais sem dinheiro. Sem poder mandar fazer. Ter que  limpar, virar, tratar e sentir o desespero da morte certa mas atrasada, cruel, matreira, Como isso tudo mexeu comigo. Virei um velho. Sei o que é morrer. Estão morrendo ao meu redor. Amigos, ídolos, um tempo todo está indo embora. Menos o meu pai. Ele não vai.  Fica por aqui reclamando das coisas que faço, fazendo coisas que eu não concordo. Me acusando de perdulário...esnobando o paraíso. Será que ele gosta tanto de mim que está me trocando por estar ao lado do Deus Pai que ele pagou em carnê? Preciso apaga-lo. Morsa, martelo, serra, divisão, casa, tudo tem que ficar com a minha cara. Pro bem dele. Mas o mais importante é aquela chácara. Preciso passar aquilo para frente o mais rapido que conseguir. Com isso ele vai ficar contente, metido, orgulhoso por ter dado um jeito na minha vida, eu que não entendo nada, que tropiquei no tapete das etiquêtas...a pai. Se não fosse a mãe louca que vc me arrumou teríamos brigado muito mais mas...isso é para outra história

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Véspera de muita coisa


Amanhã, dizem, haverá uma enorme greve no país. Nesses dias, depois dos 40, geralmente fico acompanhando o movimento pelo rádio e TV mas, dessa vez acho que vai ser bem diferente. Meu filho sináptico, o Théo, vai nos arrastar para o futuro com o seu pensamento. Uma tese com múons, quarks, spins, e outras tantas palavras fora do cotidiano, enfeixadas numa fumaça de gauloise, organizadas em  poesia matemática, dirá a um grupo de professores que Deus, se existe, é bem mais louco do que se pensava.
Para ouvir isso, nos olhares, teremos que entrar no sacrosanto território universitário. Aqueles portões fecham por solidariedade às minhocas do biotério...amanhã, dizem, haverá greve nacinal. Greve ao contrário. Param-se os transportes públicos e as pessoas ficam em greve. Em casa. Comendo pipoca e vendo na rede Globo o que está acontecendo.
Mas eu estarei lá.
Fiquei chateado pela manhã mas com o passar do dia  a coisa foi ficando mais estimulante. Afinal o que pode acontecer. Ser filmado por um helicóptero? Ficar com a bexiga cheia? Coisinhas. Um dia desses é memorável. O filho cruzando as galáxias do raciocínio e a família emperrada na marginal do Pinheiros. Impagável como diria o Almyr Gajardoni.
Vou dormir sei que teremos muito assunto no aniversário do genro, Will, no sábado....


terça-feira, 25 de abril de 2017

O pé de meu pai



O pé de meu pai se agita, mexe, treme como se soubesse que vai morrer.
Na escuridão da noite, preparam o impensável: sua separação do corpo. Amanhã ele não estará aqui. terá ido embora embrulhado em algum saco plástico com selo de lixo biológico, destino conhecido por poucos.
Esse pé ajudou muito a nós todos e agora se vai. Sem choro nem vela. Ao contrário, é acusado de ser a esquina das dores do velho. Amanhã será uma monstruosidade feia e descartada.
Mas não foi sempre assim. Lembro com saudades desse pé que chutava com a força de gigante a bola plástica da Estrela, estourando a parede da sala, lançando-a invariavelmente em direção dos antúrios sagrados da minha avó.
Sentirei falta do pé firme que forçava a pá da terra vermelha do Jardim Patente, preparando a demarcação do terreno da primeira casa própria.

Natal de 2016

sexta-feira, 21 de abril de 2017



Sonia

Eu não te amei. Não como seu marido e filhos. Eu não te conheci desde sempre como seus netos. Minha relação com você foi de outra natureza: cumplicidade dos amigos fortuitos. Talvez por isso tudo o que sinto é a suavidade  da sua presença e da sua ausência. Assim, sensações simultâneas e  indecisas como você frente a uma barraca hippie em Istambul. O mundo me deu um pedacinho seu para guardar. Como aquelas flâmulas que lançaram no Quarto Centenário de São Paulo. Quem guardou uma daquelas triângulos de prata que desceram dos céus? Eu não vi. Tinha só dois anos. Mas no álbum de fotografias da família havia uma dessas flâmulas, testemunha do brilho daquela noite inesquecível...Tanto ouvi a história que acabei criando uma memória daquilo. Anos depois, foi você quem fixou essa lembrança, descrevendo-me todos detalhes da festa mágica.  No meio da algazarra domingueira de filhos e netos, ninguém percebeu como você me confidenciava o encantamento pelo celulóide banal que os olhinhos azuis da moça encantada transformou, em prata. Como quiz o poeta.
Nesse passo, durante 17 anos, em centenas de almoços, aniversários e passeios, sempre rodeados pelo clã, bebemos o que pudemos das nossas conversas. E com o tempo, fomos trançando memórias, urdindo o tecido das verdadeiras amizades.
Hoje só ele me resta. Quando bate a saudade ele me aquece. Que bom que aproveitamos bem o nosso tempo.


PS
Só hoje, 21 de abril de 2017 conseguir terminar esse texto que comecei em 21 de julho de 2015.